domingo, 23 de setembro de 2012

De meias...

Ele avistou a entrada da sua casa de longe, como sempre. A péssima iluminação pública deixava pouco da sua casa escura à mostra, quase totalmente encoberta pelas plantas que cresciam no jardim da frente. A noite vibrava com um quê de primavera, com um quase frio que lhe permitia usar um casaco. Fez a tão adorada curva pra entrar na sua garagem e sentiu aquela velha sensação de estar em casa. O som do carro desligando ecoou pela garagem apertada e escura. Ao entrar, sendo banhado pelo cheiro familiar do seu próprio lar ele tateia em busca do interruptor. Em segundos a casa reacorda.
Não há trabalho para fazer. A louça se encontra extremamente organizada nos armários. Não há nada para se guardar, ou organizar. Ele simplesmente não consegue ver nada que precise ser trocado de lugar. Na verdade, parece que a casa não é habitada, já que não há nenhum resquício humano visível sobre os móveis. A luz branca sobre a mesa da cozinha parece zumbir em meio ao silêncio absoluto.
Numa tentativa desesperada de criar alguma atividade para preencher o seu resto de noite, ele abre abre a geladeira em busca de comida. Tira um ou dois pratos de frios e abre os armários, puxando um saco de pão e uma chaleira.
Enquanto atravessa a cozinha, nota que com exceção da cozinha, toda a casa se encontra às escuras.
Vai até a sala, enquanto a chaleira esquenta um pouco de água na cozinha e acende um abajur de luz amarela. Uma conta de telefone repousa em cima da poltrona. Ele abre o envelope sem muito interesse e volta para a cozinha, enquanto apaga o fogo da chaleira sibilante. Cada som que ele produz dentro da casa, parece ser abafado pelo silêncio sufocante. Ao desligar a boca do fogão, o som some, e não resta nada. Nem um cachorro. Nem um grilo.
A água libera o verde escuro do chá e deixa no ar um aroma um pouco mais reconfortante. A noite esfria calmamente. Saindo dali com o prato e a xícara, ele desliga as luzes da cozinha deixando o lugar na perfeita ordem em que se encontrava antes.
Sentou-se na poltrona, colocando os pés sobre a mesa de centro, e ligou a televisão, procurando um filme qualquer. na verdade, não estava nem um pouco afim de assistir a nada. Estava com a mente cansada, embora não sentisse sono. Internet simplesmente não era uma opção. Não aguentava  mais internet.
Mordeu o sanduíche, enquanto observava a sala de estar. Não havia nenhuma foto sobre a mobília. Nem qualquer tipo de decoração. Somente na parede havia um quadro gigantesco de uma imagem abstrata.
Desligou a teve. Continuou a comer. Enquanto isso, o som do Stand By corroía seu cérebro aos poucos. Fitou o controle remoto por um tempo, e em seguida a luz vermelha brilhante na televisão. Relutante, ele se levantou e desligou a TV totalmente. Um zunido ecoava na casa.
Terminou de comer e levou a louça de volta à cozinha. A torneira cortou o silêncio por alguns felizes  momentos, e ao fim, junto com a água, se foi o zunido.
Andou até a escada, trancando a porta de entrada no caminho, e subiu os degraus de madeira, com os pés ainda dentro das meias. Nem os seus passos cortavam o silêncio. Naquele dia, ele conseguiu cortar o silêncio ouvindo o rádio. A música lhe ajudou a dormir.
Naquele dia.

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